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Dor na perna do corredor: canelite

Por Dra. Ana Paula Simões | 13/09/2007 - Atualizada às 07:20 fonte: www.webrun.com.br


Uma das queixas mais comuns nos atletas recreativos e profissionais que praticam esporte de corrida é a dor na perna. O diagnóstico adequado e um plano de tratamento oportuno ajudam a assegurar um retorno mais rápido e sem complicações as atividades esportivas.

É preciso atenção quando o atleta apresenta uma queixa geral de dor na perna porque os achados no exame físico, resultados de testes diagnósticos e a forma adequada de tratamento são variáveis, pois tudo depende da etiologia específica da dor. As causas são diversas podendo variar desde condições comuns e de fácil administração, até as de difícil diagnóstico que requerem intervenção cirúrgica.

Por isso algumas perguntas essenciais devem ser respondidas de início antes de identificar a causa da dor na perna:

  • Houve alguma mudança no treinamento como: nível, intensidade, duração, superfície ou calçado?
  • Esses fatores interferem no mecanismo de corrida, distribuição de carga e força muscular?
  • Existe alguma perda de sensibilidade, fraqueza e irradiação da dor?
  • Sintomas sugerem causa de origem neurológica?
  • Ocorre dor noturna, presença de massa, mal estar ou febre, presença de vermelhidão e calor?
  • Sintomas de provável origem patológica ou infecciosa?

Diagnóstico - Depois de respondida essas perguntas é importante complementar o diagnóstico por imagem como:

  • Radiografias (em geral, se a dor estiver presente por menos duas semanas e não for intensa, provavelmente o resultado deste exame será negativo, assim como dores localizadas nas partes moles, como músculos e tendões). A indicação deste exame está nas dores articulares e ósseas agudas de alta intensidade ou de longa duração;
  • Ressonância magnética;
  • Cintilografia óssea;

Só assim o corredor saberá qual tipo de lesão o acometeu. Como são muitos os tipos de lesão, esse mês falaremos sobre: a Síndrome da Tensão Tibial Medial, mais conhecida como “Canelite”.

A síndrome da tensão tibial medial (STTM), canelite, é um distúrbio complexo e controverso que pode afetar qualquer atleta corredor. Ela é definida como uma dor e desconforto na perna causada por corrida repetitiva numa superfície dura ou por uso excessivo dos flexores do pé.

O diagnóstico deve ser limitado a inflamações do músculo do tendão devendo, portanto, excluir fraturas por stress (vide reportagem anterior) ou distúrbio isquêmico (assunto do próximo artigo). A STTM é uma condição que leva a dor na região póstero, medial da perna dos dois terços distais da tíbia, ou seja, uma dor no meio da canela para baixo mais acentuada na parte de dentro da perna. Essa condição é conhecida também como síndrome do sóleo.

Causas - A STTM é periostite causada por tensão excessiva na borda medial da tíbia por fatores múltiplos:

  • Alterações biomecânicas
  • Aumentos súbitos na intensidade do treinamento e duração
  • Alterações no calçado e superfície de treinamento
  • Lesões de partes moles
  • Falta de alongamento (inelasticidade muscular)
  • Anormalidades na inserção muscular

Etiologia e biomecânica - Na fase média da passada o pé prona para absorver o choque e para se adaptar ao terreno. Nos casos de pisada pronada excessiva ou de maior velocidade de pronação a biomecânica da marcha ou corrida é alterada gerando um estiramento do músculo sóleo medial. Essa hiperpronação combinada com o impacto repetitivo gera a periostite da borda póstero medial tibial, induzida por tração muscular.

Apresentação clínica:


  • Dor contínua, progressiva e prolongada na metade distal na região póstero medial da tíbia.
  • A dor é aliviada com o repouso e piora com a atividade física.
  • Queda do desempenho como conseqüência ou limitação.
  • Dor na tíbia distal com ou sem leve edema (a área é mais difusa que a fratura por stress)
  • Pode haver dor com elevação dos dedos do pé ou pela flexão plantar resistida

Exames complementares:

  • A maioria das radiografias é normal. Pode ocorrer neoformação óssea periosteal longitudinal irregular ou hipertrofia cortical da tíbia.
  • Já na ressonância magnética pode ser evidenciado um edema periosteal indicando a periostite de tração.
  • A cintilografia óssea pode demonstrar lesões longas longitudinais chegando a um terço do comprimento do osso.
  • Alguns trabalhos mostram que a densidade mineral óssea tibial pode estar diminuída.

Tratamento - A maioria STTM é de tratamento conservador. Faz-se necessário repouso relativo (dois a quatro meses), mantendo o condicionamento físico com atividades sem impacto e indolores como bicicleta e natação.

Medidas gerais devem ser tomadas como a diminuição da intensidade e duração do treino, além de mudar a superfície do terreno da corrida. Pode ser usado: antiinflamatórios, gelo, fisioterapia analgésica e alongamento do Aquiles. Alguns casos são necessários à utilização de órteses ou palmilha para correção da pronação.

O retorno na corrida deve ser gradual não se esquecendo do alongamento e condicionamento progressivo. A indicação cirúrgica ocorre após dois períodos de repouso e retorno às atividades com repetição dos sintomas. É recomendado a fasciotomia do compartimento posterior superficial da tíbia.

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